segunda-feira, setembro 25, 2017

QUE MULHER É A MULHER?



"Enquanto que existimos no nosso corpo terreno, estamos sujeitos à lei da Natureza que é dualidade; e esta dualidade cria a afinidade entre os complementos separados.
Esta dualidade, que é a base e o mal inicial da Natureza, é também a base da nossa experiência terrestre cuja finalidade é ultrapassar esta mesma Natureza na procura do retorno à Unidade.
Ela é a base da nossa cultura de consciência, uma vez que lhe damos a possibilidade da escolha entre as qualidades opostas,... entre o que é real ou relativo, bom ou mau para a nossa consciência actual.
A dualidade sendo a causa da sexualidade -- portanto, a afinidade entre os complementos -- é a causa do desejo que o ser humano chama amor.
O erro está em confundir amor, desejo e necessidade."*
 




A CONFUSÃO DOS SEXOS...

Toda essa vaga avassaladora de ideias sobre o Género e os "transgéneros"..

Sem a Mulher das profundidades não pode haver compreensão do verdadeiro feminino, por isso não pode haver definição de sexos baseados numa aparência e numa cultura que fez da mulher uma imagem sem nenhum conteúdo e sem essência, dividida e estereotipada.
A mulher que os homens querem ser e que procuram imitar NÃO É UMA MULHER.
A mulher não se define pela cosmética nem pela moda...a mulher não é a roupa que veste nem a maquilhagem que usa, nem os saltos altos que os trans adoram...

À mulher foi negada a alma durante muito tempo e logo do papel da Anima, …e mais uma vez, não só nas velhas religiões como na psicanálise moderna, os homens do “conhecimento racional” inverteram o sentido da essência do feminino atribuindo o animus à mulher e à anima ao homem…

A NATUREZA DESCONHECIDA DA ANIMA É A NATUREZA OCULTA DA MULHER, é a sua natureza escondida (Lilith) e negada nos séculos de religião e cultura e ideias masculinas, de filosofias e da arte apolíneas, que provocaram um branqueamento da mulher original, da mulher ctónica; séculos de desmembramento e desfragmentação do ser mulher em si, da mulher inteira - a partir do momento em que a mulher foi dividida em duas a do lar e a da rua, e se tornou uma função mais do que um ser individual, esse apagamento e essa aculturação causaram uma ausência total do sentido do que é ser mulher como ente, projectando uma metade mulher, “ideal”, “moral” religiosa, artística, romântica, a mulher fragmentada que sobrou das muitas divisões seculares entre Eva, cada vez mais asséptica e vazia de entranhas …e Lilith, completamente esquecida e relegada para os infernos, pelo único deus reinante dos patriarcas, suprimidas todas as deusas, assim como o poder vivificante e destruidor das forças ctónicas a elas associadas.
É dessa mulher anima varrida do consciente humano, soterrada nas memórias mais arcaicas que os homens da psicanálise e da psicologia das profundidades buscaram sem compreender que a mulher que eles conheciam era uma pálida imagem dessa mulher anterior ao paleolítico, da Mulher sacerdotisa, da Mulher Musa, da Rainha, da Mulher da Origem…
Assim, os melhores autores, e os mais conceituados, abordaram o tema da Anima como o feminino do homem e o Animus como o masculino da mulher sem perceber que a verdadeira Anima, o seu feminino profundo, estava completamente desligado da mulher dos nossos dias…e que tanto homens como mulheres não poderiam sequer equacionar a questão do feminino/masculino sem que a mulher resgatasse o seu eu profundo das profundezas do seu ser, do mais abissal da sua memória…e esse é um trabalho da Mulher e não do homem!

Penso que é por haver um desconhecimento total da mulher autêntica que estamos completamente e culturalmente confusos/as com a identidade do ser humano e a função de cada um dos sexos.
Os homens da psicologia e da psicanálise tentaram resolver o seu problema do feminino em si sem nunca entenderem a própria mulher, essa, dividida e fragmentada pelos imensos estereótipos que lhes eram atribuídos pela cultura secular, ou por persistirem em ver apenas a mulher que a sua cultura e a “ciência” em que foram beber o seu conhecimento, lhes permitia ver; não entenderiam nunca que sem essa percepção da divisão interna e secular da mulher em dois estereótipos fundamentais, os homens não entenderiam nunca uma METADE DA HUMANIDADE, relegada para um plano funcional, dado que a mulher assim abordada não é senão uma metade de uma metade…e por isso incompreensível a nível da psique e do intelecto.
Por outro lado, a mulher cindida não pode compreender a sua própria natureza a verdadeira dimensão do seu ser, sem se fundir à sua natureza instintiva e inicial, associada as deusas primordiais, a grande Deusa e as sacerdotisas de outrora. Ela não pode ser inteira sem se unir à "outra" mulher...que é ela mesma!

Esse desconhecimento da Mulher de si mesma e da sua essência, levava o homem e o psicólogo a encontrar um vazio na mulher (dividida) chamando-o de Animus não realizado, (a sua própria experiência de vazio de anima) quando afinal o que sucede nas nossas sociedades foi ter-se "fabricado" uma mulher com ego masculino e por isso um "animus" pela assumpção das ideias dos homens de ciência, como as mulheres por eles idealizadas, as puras e as perversas, as fatais e as inocentes etc., uma de cada lado, as duas mulheres que conviviam nas suas sociedades, uma esposa e outra a prostituta basicamente, ou a concubina, com um animus que hoje é ainda mais mais acentuado e um yang elevadíssimo. Mas os homens não viram essa divisão nem essa cisão da mulher original...e agora não vemos que o que  nos falta de facto à vida e ao Mundo é a mulher Anima, a mulher essência, uma mulher inteira que inclusive possa reflectir ao homem a sua própria Anima e então sim poder ela realizar o seu animus de forma equilibrada e vice-versa.
(...)

A NEGAÇÃO DA ALMA E DA ANIMA NA MULHER...

O QUE DIZEM OS PSICÓLOGOS...

Como diz “James Hillman, traz uma pedra importante à nossa construção afirmando que a fenomenologia da anima não se restringe ao sexo masculino e que existem “mulheres anima” que encarnam para o outro e para elas mesmas esses valores. Ele diz: “As mulheres também perdem contacto com elas e podem ser levadas a meditar no seu destino, na sua morte, na sua imortalidade. Elas também fazem a experiência da alma e sofrem do seu mistério e da sua confusão.”
O mesmo autor  acrescenta um pouco mais adiante: “Porque é que o mesmo comportamento se chama “anima” num sexo e no outro e natureza feminina” ou “Sombra” no outro.?”

Para Hillman, as mulheres têm “a profundidade da alma ou elas são alma (…) e psique, mas o sentimento íntimo de alma, não é dado à mulher pelo simples facto de ela ser uma mulher.” (…)
Se Jung vê a Anima como um “vazio”, Hillman precisa: “Nós não podemos explicar esse vazio em termos de sombra inconsciente ou de Animus não desenvolvido (…) esse vazio devia ser considerado como uma autêntica manifestação arquetípica da Anima.
(…)
Mas ao mesmo tempo, nós veremos mais longe, ela (Anima) como sendo a única via possível para a hiper-consciência verticalizante.
O desconhecido é também aquilo que torna evidente a natureza enigmática, inalcançável, e inacessível de Lilith. Ela é, seja “à distância”, seja “velada” como Ísis ou se descobrindo pelo abandono dos numeroso véus – como Humbaba ou Salomé, sempre instigante de fantasmas e de projecções múltiplas.
Citemos ainda Hillman: “É a este inconsciente fundamental arquétipo, ausência de luz, de moralidade, de sentido de conflito, de intenção (…) que Jung faz alusão em certas passagens sobre a natureza desconhecida da “Anima”.*

Rosa Leonor pedro

* in "L'OUVERTURE DU CHEMIN"  DE ISHA SCHWALLER DE LUBICZ

** In Le Retour de Lilith de Joellle de Gravellaine

A NOSSA MENTE PRIMÁRIA


E A NOSSA VISÃO SUPERFICIAL, LIMITADA E TOSCA…

“A psicologia moderna é uma ciência infantil, ao mesmo tempo arrogante, tosca e desajeitada. Comum a... todas as ciências em estado de infância, o hábito universal da mente humana – de tomar uma verdade parcial ou localizada, generalizá-la indevidamente e procurar medir por essa insignificante régua a amplitude da Natureza – permanece nela de forma descontrolada. Além disso, o exagero da importância do complexos sexuais reprimidos é uma falsidade perigosa, que pode obter uma influência ruim e tende a tornar a mente e a vitalidade mais fundamentalmente impura do que antes, e não menos.
É verdade que, no Homem, o subliminar é a parte maior da sua natureza e contem em si o segredo da dinâmica invisível que explica as suas actividades superficiais Mas o subconsciente vital inferior, que é tudo o que essa psicanálise de Freud parece conhecer – e mesmo dele só conhece uns poucos cantos iluminados -, não passa de uma porção restrita e muito inferior do ser subliminar como um todo. O ser subliminar permanece por detrás do homem superficial e o sustenta inteiro; é dotado de uma mente maior e mais eficaz do que a mente superficial, de uma vitalidade maior e mais poderosa do que a vitalidade superficial, de uma consciência física mais subtil e mais livre do que a existência corpórea superficial.”

Sri Aurobindo

domingo, setembro 24, 2017

Aceitamos a crença...



A DIFERENÇA ENTRE O DIVINO E A CRENÇA...

“[…] noutros tempos, o divino fez parte, intimamente, da vida humana.
Mas, está claro que esta intimidade não pode ser percebida a partir da consciência actual. Aceitamos a crença – ‘o feito’ da crença – mas é difícil reviver a vida em que a crença não era fórmula cristalizada, senão um hálito vivente que em múltiplas fórmulas indefiníveis, indistinguíveis perante a razão, levantava a vida humana, a incendiava ou a adormecia levando-a por lugares secretos, promovendo ‘vivências’, cujo eco encontramos nas artes e na poesia, e cuja réplica, talvez, deu origem a actividades da mente tão essenciais como a filosofia e a própria ciência”

 1955, Maria Zambrano

escrever ou não escrever



Nota para não Escrever


Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se ...que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.


Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'

sexta-feira, setembro 22, 2017

SAUDADE DE MIM...



"Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

clarice Lispector


CARTA A UMA AMIGA

A meditação não cura doenças nem resolve problemas psíquicos ou físicos...como vulgarmente se pretende, nem é uma mentalização qualquer (como a meditação guiada) ou o recitar de mantras ou olhar para uma vela!
A Meditação é uma concentração, um FOCO (um fogo) em algo inatingível pela mente, incompreensível ao intelecto...e pertence a uma parte de nós que é nuclear e sejamos nós quem formos ou o grau da nossa inteligência ou educação, cultura, nível social-económico ou espiritual...em nada interfere senão com a Alma e o Ser que está para além de tudo isso.
É meditando que fortalecemos essa parte de nós que é interna e eterna e que não é influenciada pela mente nem pelo físico, mas que é o nosso centro energético (consciência pura, diria) e se esse centro estiver acordado e nós firmes e centradas nele, tudo o que nos afecta na superfície do nosso ser é atenuado pela consciência de algo superior mas não nos tira nem os problemas, nem os conflitos emocionais e psíquicos...apenas alivia e relativiza tudo isso que se passa fora e dentro de nós, se nos mantivermos focadas nele...é como alguém dizia: nós caímos na mesma, mas em chão parece acolchoado...
A ideia de que a meditação é uma terapia ou age sobre as questões físicas e psíquicas para mim é errada. É como o Respirar...respirar não nos cura...faz-nos viver ou permite-nos viver...RESPIRAR FUNDO, pode até equilibrar os chakras e outros centros nervosos talvez, activar a pineal, como dizem...sim, pode minimizar, mas não nos salva dos conflitos da psique nem dos problemas que criamos na prática em acções diárias, as nossas escolhas, os nossos sentimentos, o que não resolvemos, etc. se nós não fizermos nada por isso.
A vida em si é uma coisa e as circunstâncias da vida são outra...não confundamos! Temos de viver dentro desta realidade e compreender qual é o nosso papel na cena - Maya - ou no mundo em que vivemos...temos inclusive que trabalhar para “viver” - só isso é um drama ...somos escravos do dinheiro quer o tenhamos ou não...Também há sentimentos ou paixões que nos aprisionam e mantêm escravas deles. Há a fome e o desejo, há as necessidades do corpo...do sexo, mas há sobretudo o medo da doença, da morte e a inconsciência total do sentido profundo da vida e do milagre da nossa existência - a absoluta e incrível arquitetura deste corpo magnífico...que nós usamos sem saber quem somos e o que somos...ignoramos a nossa majestade como seres, a nossa grandeza, e que o ferimos e matamos e o usamos como se fosse nosso e o tivéssemos garantido...e contudo...não nos pertence. Essa é a nossa miséria...
Talvez essa ignorância de quem somos e do nosso valor intrínseco como SERES HUMANOS seja a fonte de todo o nosso desequilíbrio, nomeadamente nós mulheres, afastadas da nossa essência e força vital.
rosaleonorpedro
Republicando...

A CISÃO DA MULHER FOI UM EMPOBRECIMENTO


..."Sim chamar-lhe-ei poetisa. A homenagem que distingue o génio poético feminino com o prémio de lhe masculinizar o estro ultraja uma poesia que quer feminizar o mundo com magia e claridade lunar." - Natália Correia
......
vem, lira divina,
e me responde;
encontra, tu mesma, ...
tua própria voz
e
de [vossa casa] dourada,
vinde a mim, ó Musas
Safo

UMA ANTÍTESE INVENTADA - a fim de cindir a humanidade feminina...
(...)
"Entendo que essa antiga e venerável missão das prostitutas é uma ética congenitalmente feminina que só por um desvio de uma religião patrística foi reservada às sacerdotisas do amor a fim de cindir a humanidade feminina na projecção do abominável e do sublime masculino. Uma antítese inventada por esse ser eminentemente melodramático que é o homem, sem a mínima verosimilhança no cosmo da realidade da mulher que não distingue o espírito da carne. Eis porque as mulheres honestas sempre no fundo invejaram as prostitutas e vice-versa.” (...) In A MADONA de Natália Correia

"A razão poética é uma razão de amor, porque é “reintegração da rica substância do mundo”, ou seja, porque procura a reunião, a ligação. Se atendermos à definição dada – “reintegração da rica substância do mundo” – temos de reconhecer nesta racionalidade a vontade de restituir algo perdido para que a riqueza do mundo se recomponha. Ou seja, algo se cindiu e essa cisão foi um empobrecimento; restaurar a perdida riqueza do mundo supõe superar essa cisão e retornar a uma unidade originária.” FERNANDA HENRIQUES


A cisão aplicada à Mulher (a sua divisão em duas) foi o que fez o ser humano perder a ligação do cósmico e telúrico - a perda de contacto com a natureza da mulher instintiva e da mulher como  oráculo e o seu afastamento da mulher original, originou uma perca substancial da ligação ao  universo a partir do momento em que a mulher, mediadora das forças cósmico telúricas, deixou de o fazer condenada ao descrédito por Apolo e depois ,condida em duas pelo catolicismo e com essa cisão perdeu-se a possibilidade de “reintegração da rica substância do mundo” uma vez que é  a mulher em essência essa mesma substância ou Sophia e ainda a  Musa e a própria poesia - sem a musa não há poetas...etc.
 Este tema...é intuído de forma muito próxima do grande cisma que divide o mundo pela anulação divisão da mulher; estas escritora  intuem a cisão do mundo e da mulher mas não colocam na própria mulher essa substância, porque a mulher foi desviada dela como um ser-sentir e pensa-se em abstracto, tal como o homem pois o seu feminino profundo - a sabedoria está desligada na mulher intelectual que usa  o ego do homem (filosofo) e não o seu dom inato de vidente... 

A mulher intelectual,  regra geral, não se revê certamente nem revê em si mesma a divisão das duas mulheres, não vê dentro de si o conflito entre uma parte, a má, a parte reprimida da mulher, a sombra de Lilith, a puta  diria, e a parte boa, a Virgem, a esposa...creio bem que ela não vê essa cisão na própria mulher e como ela se repercute no exterior e no mundo...como a cisão da mulher se reflecte a cisão da "rica substância do mundo"  que corresponde ao feminino por excelência...e o que realmente falta no mundo...

 rlp

A SABEDORIA É FEMININA


ELA CONTEM EM SI A SABEDORIA

"A sabedoria é mesmo feminina. Correndo o risco de me repetir ou citar a mim mesma, direi que a «sophia» é feminina. A sabedoria é feminina e a filosofa é masculina. O homem enamora-se da sabedoria, mas nunca chega lá. E o percurso para... A mulher, ela própria, é ovularmente o segredo do Universo. Ela contém em si a sabedoria. As vezes não têm é consciência disso."

Entrevista (1983), Natália Correia


..."A mulher tem em si a sabedoria, um tipo de sabedoria inata, um catalisador único da realização. (...) A mulher potencialmente está directamente ligada ao conhecimento e a sabedoria, que são as duas forças complementares da grelha de base.* A mulher realizada domina a dualidade e ajuda o homem a transcendê-la. Enquanto o homem tem acesso ao conhecimento que está no início de tudo e além disso da vontade."

A mulher já é portadora do mundo transcendental - a Virgem Maria, Ísis, as Virgens negras. O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso.


Etienne Guille in O HOMEM ENTRE A TERRA E O CÉU


'' As mulheres são efectivamente sábias por natureza, mas para os homens a sabedoria tem de ser ensinada pelos manuais.''

Do drama indiano "O pequeno cesto de barro" escrito pela mão do rei Śūdraka, sec II A.C.   

terça-feira, setembro 19, 2017

Arundhati Roy:

 «Na Índia, é mais seguro ser uma vaca do que ser uma mulher»

Arundhati Roy               
 
Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

É uma mulher enorme, de corpo franzino, voz baixa, olhar doce e sorriso sereno. Há vinte anos escreveu O Deus das Pequenas Coisas, romance de estreia que lhe valeu o Booker Prize (vamos esquecer o Man incluído no nome do prémio) e fez dela uma escritora conhecida em todo o mundo, com milhões de livros vendidos e traduzidos em 42 línguas.
Elevada a rosto da nova Índia, recusou o rótulo que a tornaria cúmplice de uma ideia de sociedade e de país que deplora e tornou-se ativista pelos direitos humanos, contra os ensaios nucleares e a ocupação de Caxemira, contra o sistema de castas e a forma como as mulheres são tratadas. Por isso, sofreu ameaças e perseguições. Teve (tem) medo, mas nem este a deteve. Parece que é isso a coragem.
Os vinte anos que separam os dois livros deram-lhe o mundo que construiu no seu segundo romance, O Ministério da Felicidade Suprema, lançado este ano e que a colocou de novo entre os candidatos ao Booker Prize, a mais alta distinção da literatura em língua inglesa.
Diz que não sabe o que é um país, mas nunca conseguiu viver noutro senão aquele em que nasceu.

Entre O Deus das Pequenas Coisas e O Ministério da Felicidade Suprema percebe-se uma visão maior do mundo. Foi o que fez nos 20 anos de intervalo entre os dois livros: ganhar mundo?
Sim. Depois de escrever O Deus das Pequenas Coisas, viajei, escrevi ensaios de não-ficção, envolvi-me no que estava a passar-se na Índia. É um país que mudou de forma muito dramática nestas duas décadas.
O primeiro livro ganhou o Booker Prize, foi um sucesso internacional e a Arundhati partiu para a luta. Escolheu o caminho mais difícil.
Não me sentia confortável com o facto de ser uma escritora de sucesso, conhecida em todo o mundo, mas que vivia num lugar onde as pessoas não sabiam ler, não tinham o que comer. Qual deveria ser o meu papel? Era essa a questão que colocava a mim própria. Decidi dedicar a minha energia a pensar sobre esse lugar e, através disso, a pensar sobre o mundo.
 (...)
Esteve envolvida em diversas causas. O que a revolta mais?
Pouco depois de O Deus das Pequenas Coisas ter sido publicado, em 1997, e ter ganho o Booker Prize, foi eleito na Índia um governo de extrema-direita fundamentalista hindu. Foram feitos uma série de ensaios nucleares, celebrados não só pela classe política, mas também pelos media, por artistas e escritores, de uma forma que considerei muito feia. Senti que o discurso público tinha mudado. Nessa altura, eu era apresentada como a cara desta nova Índia e considerei isso muito perturbador porque não concordava com aquele tipo de posição política.
Quis demarcar-se?
Sim. Por isso, escrevi um ensaio, chamado O Fim da Imaginação, que desencadeou muita raiva contra mim, da parte das mesmas pessoas que antes me celebravam. Comecei a viajar e a escrever e a verdade e a perceber que o que me revolta é a ideia de uma sociedade que glorifica a injustiça. Não há nenhuma sociedade completamente justa, mas pelo menos tenta-se alcançar a justiça. Aqui (na Índia), a começar pelo sistema de castas, celebra-se a injustiça, faz-se desta uma coisa sagrada.

«O sistema de castas é o motor da Índia moderna»

Como se explica que até hoje esse sistema não tenha sido abolido?
Arundhati Roy
O sistema é questionado. Um dos grandes intelectuais na Índia, um homem chamado Dr. Ambedkar da casta dalit (intocáveis) foi um dos grandes opositores de Gandhi. Gandhi é na verdade uma pessoa cujas visões deviam ser olhadas com mais atenção e seriedade porque há muita falsa propaganda sobre quem era e o que defendia, sobretudo acerca do sistema de castas e as mulheres. Mas não só ele. Quando escrevi O Deus das Pequenas Coisas, a esquerda em Kerala ficou muito zangada com o livro, porque este questionava o facto de os partidos comunistas não fazerem nada para acabar com as castas. A questão é que os grandes intelectuais, escritores e artistas na Índia, mesmo os de esquerda, não olham para isso, agem como se o problema não existisse (é como escrever sobre o período do apartheid na África do Sul e esquecer que existiu apartheid), quando na verdade o sistema de castas é o motor da Índia moderna.
O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. mas está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga.
Nesses vinte anos viu a morte e a violência de perto?
Não presenciei, mas conheci muita gente que… Quando estive na floresta, conheci gente como a camarada Revathy, [personagem de O Ministério da Felicidade Suprema], mãe verdadeira da Menina Jebben, a segunda, que foi violada por seis homens e torturada e mais tarde morta. O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. E está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga. Mas em Caxemira foram mortas cerca de 60 mil pessoas, muitos milhares foram torturadas, há 10 mil desaparecidos. E as pessoas não sabem de nada. É a mais densa ocupação militar no mundo.
E sente que tem que denunciar isso?
Não foi esse o meu principal objetivo com este livro. Se quisesse denunciar, teria escrito um ensaio, mas precisava de perceber. O mundo todo está envolvido em coisas destas…
A Índia de O Ministério da Felicidade Suprema é também um espelho do mundo?
Sim, é um microcosmos do mundo e da evolução da civilização. A Índia fez testes nucleares, abriu os seus mercados, começou a chamar a si própria de superpotência. Outras superpotências têm colónias, a Índia não tem, por isso coloniza-se a si própria. É também sobre a história do colonialismo, este livro. Mas não é só sobre opressores e oprimidos, é sobretudo acerca de como essa opressão funciona, como é que os oprimidos a vivem e a veem, como é que se vive isso, como é o ar que se respira, como é a atmosfera.
O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este horror venha à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
Grande parte parte da ação deste seu livro passa-se num cemitério, onde vivem as suas personagens. Disse numa entrevista que vivemos todos num cemitério. Porquê?
Quando falei nisso, estava a pensar nas alterações climáticas, no facto de estarmos a viver num planeta moribundo e não reconhecermos isso. E isso não vai mudar a não ser que consigamos construir uma casa de hóspedes, como fez Anjum, e consigamos pensar de forma diferente. O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este absoluto horror e esta estupidez venham à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
(...)
Quando escreve, pensa se deve ou não escrever. Tem medo?
Tenho muitos medos. Quando estava a escrever O Ministério da Felicidade Suprema disse para mim própria: escreve-o como queres e depois guarda-o numa gaveta, mas depois de escrito o ego de escritora não permite que se mantenha guardado numa gaveta. Mas, até agora, tem sido tranquilo. Não tem havido problemas.
 (...)
A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro.
A forma como as mulheres são tratadas também. Considera-se feminista?
Claro. A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro. Pode ter uma mulher como eu, que é completamente independente, que diz o que quer e que vive como quer – eu sou talvez das mulheres mais livres em todo o mundo e tenho um lugar na Índia – mas também tem mulheres a matar os bebés do sexo feminino quando nascem e a destruir os fetos quando sabem que são meninas e a alimentar as filhas menos do que alimentam os filhos, tem mulheres que são oprimidas das mais abjetas formas e isto acontece tudo na mesma sociedade.
E porque é que acontece? Tem a ver com a condição sócioeconómica?
O condicionamento cultural é determinante. Todo o mundo tem conhecimento das violações e das manifestações contra as violações. Mas, mais uma vez, é muito complicado porque a violação foi (tem sido) tradicionalmente usada como arma feudal. Um homem de uma casta superior pode violar uma mulher dalit, tirá-la de casa, fazer o que quiser com ela (o exército em Caxemira também a usa como arma), mas há agora também uma raiva contra as mulheres modernas, que percebem que existe outra maneira de viver e se recusam a viver de acordo com as regras tradicionais e também ela é brutalizada. A mulher é brutalizada por ser tradicional e brutalizada por ser moderna e por tentar mudar as regras e recusar esse controlo hegemónico dos homens. Hoje, na Índia, é mais seguro ser vaca do que ser mulher porque as vacas são protegidas e as mulheres são atacadas.

Arundhaty Roy
Apesar disso, e de ter sido acusada de anti nacionalista, escolheu viver sempre no seu país.
Porque não o vejo como um país, mas como um lugar onde vivo e onde estão as pessoas que conheço e que amo. Continuo a perguntar: o que é um país? Até há 70 anos Índia, Paquistão e Bangladesh eram um país, agora apontam mísseis uns aos outros. Na verdade, mesmo nessa altura não éramos um país. Os ingleses desenharam um mapa e havia 500 reinos separados dentro dele. A Partição criou violência, mas a assimilação também. Caxemira tem a ver com isso. O que está a passar-se no norte da Índia é isso, assimilação forçada. Por isso, o que é um país? Não percebo, não consigo ficar entusiasmada. Percebo do ponto de vista administrativo, mas não do ponto de vista da emoção, do país como algo sagrado, que pode levar mesmo à morte de quem falar contra ele.
Porque vive lá, então? Não terá, no fundo, a ver com uma ligação emocional ao seu lugar?
Vivo lá como uma árvore, se tiver que ser transplantada serei, as minhas folhas vão cair, envolverá trauma, mas talvez voltem a crescer.
O que teme mais?
Neste momento, que todos os dias, no sítio onde vivo, esteja a ser injetado veneno no sangue das pessoas comuns e para o qual não há um antídoto simples. Estão a criar-se as condições atmosféricas para algo terrível. E por causa desse horrível nacionalismo cultural e religioso, que está a dominar a sociedade indiana, milhões de pessoas estão ser empurradas para a destituição absoluta de tudo. Caminhamos para uma situação assustadora.
A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
Quem são os que estão em situação mais frágil?
Os muçulmanos, que estão a ser destituídos de todos os direitos, os indígenas que estão a ser expulsos das suas terras por causa da exploração mineira, as mulheres, que são as mais frágeis entre os frágeis, os dalit que levam milhares de anos de opressão. A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
A religião é a raiz destes males?
Não é só a religião. É sobretudo o impulso hegemónico. Por isso é que o santo de O Ministério da Felicidade Suprema – Hazrat Sarmad Shaheed – é um santo que resistiu a todas as hegemonias. O judeu arménio homossexual que chegou a Deli, tornou-se islâmico, cortaram-lhe a cabeça e mesmo assim continuou a dizer poesia. Resistiu a todas as formas de hegemonia.
Ganhou o Booker Prize há 20 anos. O que significou na altura e o que significaria voltar a ganhá-lo?
Deu-me muita proteção. A visibilidade funciona em dois sentidos, é-se mais atacado, mas também se está mais protegido. Não era só uma pessoa anónima a quem podiam fazer o que quisessem e isso foi importante. E o facto de o livro ter ganho o Booker Prize deu-me independência financeira, o que também é bom – não veio de uma herança, veio do meu trabalho e isso significa muito.
E se o ganhar novamente?
Fico contente.
Quanto tempo teremos que esperar por um novo livro?
Não sei, não sei.

sábado, setembro 16, 2017

SER MULHER

O QUE PENSAM OS FILÓSOFOS DAS MULHERES

 “Ser-se mulher é algo de tão peculiar, de tão misto, de tão complexo, que nenhum predicado pode por si só exprimi-lo, e os muitos predicados, caso os quiséssemos utilizar, contradir-se-iam mutuamente de tal maneira que só uma mulher seria capaz de suportar tal coisa; aliás, pior ainda, seria capaz de encontrar prazer nisso.”...
  SÖREN KIERKEGAARD (1813-1855)



Por  causa destas e de outras considerações sobre as mulheres eu acho  que nenhum homem por mais erudito e culto ou bem intencionado que seja pode ou deve manifestar-se - ensinar o que quer que seja - sobre o que é a Mulher e a sua natureza...embora possam existir homens sábios que sentem e percebem a mulher.

Quanto a mim, nenhum homem deveria ser autorizado legalmente...a falar daquilo que não é nem conhece por experiência própria. Dai eu considerar  que é perniciosa toda a abordagem que o homem faz teoricamente da mulher pela simples razão de que não ele não nasceu mulher  e projecta toda a carga secular subjectiva/objectiva,  psíquica e religiosa que traz consigo e viveu como macho  dentro do Sistema e que o afecta acerca da mãe e da mulher tal como a sua ideia  do Pecado ou da sua leitura da Génese.

Há séculos que o Olhar do Homem sobre a condição e o saber da mulher é expandido de forma alienante para a própria mulher não só por a mitificar, seja inferiorizando-a na sociedade e a elevar aos céus e no altar, seja por a condenar aos infernos por ser pecadora promiscua ou infiel.
Não dou crédito a nenhum homem que se pronuncie seja a que nível for sobre uma Mulher. Sejam eles místicos sejam teólogos sejam os mais simples e honestos.
O homem, qualquer homem  tem - para não dizer todos - que aprender sobre e com a Mulher  mas não pode nem deve em consciência e se for honesto propor-se falar para as mulheres sobre elas  em circunstância alguma. É tempo de as mulheres falarem de si. Não ouvir os homens! Não seguir mestres nem guias nem facilitadores. Na verdade eles estão tão habituados a viver à conta das mulheres que não resistem à manipulação sexual e religiosa e não conseguem perder as fieis seguidoras que são as mulheres em todos os sectores do conhecimento "espiritual" e não só pois  no fundo querem continuar a manter o controlo das mulheres servindo-se delas de todas as formas como o fazem os políticos e os religiosos.  

Só a mulher pode e deverá falar de si mesma! Apesar de a própria mulher não estar  ainda em contacto com a sua essência primeira, ela devia primeiro recordar-se QUEM ERA  e ir ao fundo da sua psique.  Portanto o que elas ouvem dos homens e dos mestres e lhe ensinam sobre si nas escolas é precisamente tudo o que a alienou da sua natureza profunda, que contribuiu para a sua manipulação e ignorância de si e assim qualquer tentativa de mestres e de guias falarem da Mulher e da sua sexualidade é falseada e não é mais do que o homem sempre fez com a mulher: servir-se da sua ignorância e manipulá-la para o seu serviço seja qual for o seu interesse imediato. Assim o olhar do homem, por melhor intencionado que seja,  sobre a condição e saber da MULHER é quase sempre o olhar mais pernicioso e nefasto porque melhor pode afastar a mulher de si mesma e da sua essência, enganando-a com ideias e conceitos que a condicionam a ser esse travesti a que eles deram forma e que os gays copiam.
As mulheres, essas mulheres que foram as descendentes das nossas mães e tias  foram afastadas dos valores do feminino em nome da emancipação e da liberdade sexual, mas esquecemos que sem esses valores a sociedade regride e adoece...e por isso como diz no inicio o autor citado o mundo está em ruinas e digo eu à beira de uma guerra tremenda - a começar com a migração muçulmana que eu não posso nem por um minuto esquecer. O que a mulher feminista fez foi deitar fora com a água suja o bebé...
Precisamos de voltar a esses valores do verdadeiro feminino, sem esquecer que somos livres e para isso a mulher tem de estar consciente de si também ao nível do seu ser mais profundo. Que valores são esses pois?

"ESSES VALORES FEMININOS SÃO: O AMOR, O AFECTO, AS RELAÇÕES HUMANAS o contacto com a natureza e a vida. E as crianças, visto que a mulher também é mãe. Esses aspectos fundamentais do seu ser não os citei logo para evitar que a mulher que ler este texto suspeite da intenção camuflada de voltar a encerrá-la nos três famosos "K" Kinder, KUche, Kirche - crianças, cozinha e igreja."

E endosso as palavras de J. Guendher, em yuganaddha, The Tantric View of live:

"A consciência da mulher é diferente; ela já percebeu as coisas quando o homem ainda tateia na escuridão. A mulher percebe as circunstâncias que a cercam e as possibilidades a elas ligadas, algo que um homem costuma ser incapaz. Por isso, o mundo da mulher parece-lhe pertencer ao infinito, para fora do tempo e para o transcendente, pode fornecer as indicações e os impulsos mais válidos. Essa transcendência é a sabedoria, e esta supera o saber intelectual...A mulher e tudo a ela associado parecem bem estranhos ao macho e,, no entanto, isso faz parte de seu universo mais íntimo, à espera de se realizar por ele" (p.172)

rosa Leonor pedro 

PS: Eu sei que me repito infinitamente, mas esta é uma lição árdua de aprender...

sexta-feira, setembro 15, 2017

O HOMEM "CRIA" A MULHER...



UM OLHAR SOBRE A DOMINAÇÃO DO MASCULINO

"...pertencer a um tempo e a uma cultura significa possuir uma herança, constituída por um conjunto de recursos de interpretação, com a qual nos orientamos como humanos. Contudo, tal interpretação deve configurar‑se como um comportamento reflexivo perante a herança cultural e não representar uma aceitação passiva dela. Ou seja, “ter sentido histórico” obriga a reconhecer o legado cultural que recebemos, mas, obriga, igualmente, a re‑avaliá‑lo e a re‑interpretá‑lo, de tal forma que possamos re‑configurar, com maior equidade, a herança cultural que vamos deixar.

No caso das representações do feminino, o trabalho de interpretação do legado cultural é particularmente delicado porque tem de ser feito ao arrepio daquilo que mais profundamente nos constitui, tendo de começar por uma desconstrução e por uma hermenêutica da suspeita, uma vez que as representações do feminino mais enraizadas advêm de uma concepção antropológica assimétrica, que toma o masculino como padrão e o feminino como derivado.

Nesse contexto desconstrutor e de suspeição, um olhar reflexivo sobre a tradição ocidental deve deixar‑se orientar pela ideia de que a dominação masculina não foi universal e pacificamente aceite, mas apenas assumiu o aspecto de parecer ter sido absolutamente aceite. Ou seja, re‑significar a nossa História comum, de homens e de mulheres, obriga a procurar os ruídos à aceitação universal da dominação masculina que ocorreram e trazer à luz os sinais da ambiguidade e da complexidade nas relações de poder entre os sexos, que todas as épocas testemunham. Sem a desocultação desses acontecimentos não será possível fazer um novo caminho de entendimento do nosso modo de ser e de estar e, nós, mulheres, estaremos desmunidas de figuras femininas que materializem a possibilidade de nos olharmos como seres humanos integrais. Além disso, se aceitarmos passivamente a ideia de que a dominação masculina foi sempre completamente aceite, estamos a fazer uma nova discriminação em relação à nossa herança cultural, porque não fazemos justiça a quem se insurgiu contra a dominação do masculino, e estamos, por nossa vez, a invisibilizar o seu esforço, reiterando o legado cultural que o conseguiu escamotear.
Tal interpretação reflexiva da tradição ocidental vai mostrar‑nos um modo de pensar as mulheres e o feminino, a que se poderá chamar pensar canónico − que dá das mulheres e do feminino uma visão negativa e subalterna −, mas também uma contracorrente de pensamento ou ruídos marginais ao pensar dominante que evidenciam o facto de a aceitação da dominância do masculino nem sempre ter sido pacífica."


FERNANDA HENRIQUES
(Docente na Universidade de Évora)